A ajuda que vem dos céus

Águia salva dez vidas por semana
Tahiane Stochero
Vem dos ares a ajuda que muitos motoqueiros recebem para sobreviver a acidentes graves, todos os dias, nas ruas de São Paulo. A cada semana, pelo menos dez vidas são salvas na capital pelo helicóptero Águia da Polícia Militar. Ao todo, foram mais de 6.500 pessoas resgatadas em 25 anos de atuação do Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão, que possui hoje 16 helicópteros e seis aviões.
Segundo o capitão Marcelo Tasso, comandante do Águia há nove anos, 80% das ocorrências de salvamento do grupo são de acidentes de trânsito, sendo os motoqueiros 80% das vítimas. “Recebemos o alerta que chega à PM pelos telefones 190 e 193 e, dependendo da gravidade, o Águia é acionado”, diz.
Contando com 70 pilotos, o grupamento possui cinco bases no interior do estado. Outras três serão instaladas ainda neste ano em São José do Rio Preto, Piracicaba e Sorocaba. Desde 1984, foram mais de 151 mil missões e 74 mil horas de voo. Cada hora do uso do Águia custa R$ 870 ao governo.
Missões de perseguição
As aeronaves militares não atuam somente em resgate ou transporte de órgãos para transplante. Na história do grupo, 57% das missões foram de ocorrências criminais — como perseguições, rebeliões e apoio às viaturas em terra, transmitindo em tempo real imagens dos confrontos ao quartel-general da Polícia Militar.
Há sempre três equipes do Águia disponíveis. Se uma sirene soa na base, é o helicóptero preparado para o confronto que deve decolar. Se há dois sinais, voa a equipe de resgate, que conta com uma médica civil e um enfermeiro policial. “Atuamos nos confrontos na Favela Paraisópolis, na Zona Oeste, em fevereiro, quando vândalos colocaram fogo em barricadas para impedir a entrada dos policiais. Com um sensor infravermelho, identificamos os focos de incêndio no chão, para ajudar a Tropa de Choque a entrar lá pelas vias liberadas e conter o tumulto”, explica Tasso.
Aeronave já foi alvo do PCC
Se no Rio de Janeiro os traficantes conseguiram abater um helicóptero do Grupamento Aéreo Marítimo (GAM) da PM, deixando três policiais mortos, em São Paulo os integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) não tiveram sucesso em uma tentativa semelhante.
Em 7 de novembro de 2008, bandidos roubaram mais de R$ 150 mil de um banco em Guarulhos, na região metropolitana. Na fuga, foram perseguidos pela polícia no Jaçanã, Zona Norte da capital. Foi quando o Águia , que apoiava as viaturas em terra, foi atacado por criminosos. Um dos disparos de fuzil passou raspando pelo piloto e atingiu o teto da aeronave, que teve que desviar dos tiros. Mesmo danificado, o helicóptero seguiu na missão.
Em ocorrências criminais, além das tradicionais pistolas .40, os policiais levam a bordo do Águia submetralhadoras, como a Beretta 9mm, e até mesmo fuzis calibre 5.56. Se for necessário, eles podem disparar do ar contra veículos e pessoas. Tiroteio em ação Em uma perseguição em novembro passado, PMs foram obrigados a atirar do Águia contra um caminhão roubado de uma transportadora, na tentativa de pará-lo.
“Na fuga, os bandidos colidiram o caminhão contra viaturas na pista local da Marginal Pinheiros, atravessaram o canteiro e entraram na via expressa, atropelando pessoas. Atiramos de metralhadora contra o caminhão, mas ele não parou. A Polícia Rodoviária Estadual fechou a Rodovia Castello Branco com uma carreta e os ladrões jogaram o caminhão dentro do Rio Tietê. Tentaram fugir nadando, mas o Águia se aproximou e eles se renderam”, lembra um oficial.

Entrevista: Capitão Wander Satil de Souza, Piloto do helicóptero da PM há nove anos
‘Toda missão é sempre imprevisível’
DIÁRIO — Qual é a maior dificuldade em voar no Águia?
CAPITÃO WANDER — O maior problema é sempre o pouso. Temos que escolher um local perto da vítima a resgatar sem que isso atrapalhe o trânsito. É difícil. O Águia tem autorização para pousar em qualquer lugar. Paramos sobre lajes de prédios, garagem de ônibus, campos de futebol, rodovias. Onde o Águia couber com segurança.
Você lembra de algum fato curioso ocorrido em um voo?
Há dois anos, estava voltando de uma missão de perseguição à noite quando sobrevoamos uma mata e o flyer (câmera com infravermelho que denuncia a presença de calor) mostrou que havia um corpo dentre as árvores. Achamos que podia ser um bandido em fuga e acionamos o policiamento em terra para investigar o caso e entender do que se tratava. Para a nossa surpresa, era um homem bem vestido, de classe média, que disse estar dormindo no matagal. Achamos estranho, devia ser algum maluco para dormir no mato.
Qual é a melhor parte do trabalho aéreo?
Quando a sirene soa, partimos sem saber o que realmente está ocorrendo e o que vamos encontrar pela frente. Toda missão é sempre imprevisível.



Lembo com Saulo, em 2006, governador e então secretário de Segurança
